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Dia 9 — ENTRE O MANGUE E A MATA: ILHA DO TANQUE, BAÍA DE CAMAMU

  • 23 de mar.
  • 3 min de leitura

Se você está pesquisando o que fazer na Península de Maraú além das praias, talvez precise entrar no manguezal.


Ilha do Tanque
Ilha do Tanque

Quando alguém pesquisa “o que fazer na Península de Maraú”, aparecem praias, piscinas naturais e passeios de lancha pela Baía de Camamu.


Elas existem. São lindas. Funcionam bem no Instagram.

Mas existe Maraú fora do óbvio.


Eu só entendi o que é, de fato, a Península de Maraú depois de entrar no mangue.

E não foi numa lancha rápida.


Ilha do Tanque vale a pena?

A Ilha do Tanque é próxima.

Do Porto do Jobel — sim, o próprio, responsável por erguer a estrutura que hoje organiza tantas travessias — são cerca de 30 minutos de catraia. A entrada acontece pela comunidade do Saleiro, perto da Lagoa do Cassange.


Geografia que não vem no mapa turístico.


O percurso atravessa o manguezal da Baía de Camamu — um dos sistemas estuarinos mais importantes da Bahia. O mangue sustenta a pesca artesanal praticada pelos moradores locais e constitui a principal base proteica da população nativa da região.


O mangue não é cenário.

É sustento.

E isso muda tudo.


O que existe entre o mangue e a mata?

Na Ilha do Tanque, quem nos recebe é Cida Félix.


Cida é liderança local, ativista por direitos básicos da população ribeirinha, agente de saúde — viva o SUS — mãe, avó e guardiã dos caminhos da ilha.


E como todo mundo aqui é parente, Cida é tia do Adriano, marido da Toinha do Bar Santo Antônio, pais da Alice, minha amiga de seis anos.


Aqui até as árvores têm sobrenome.

Mas isso é outra história.


Ela nos leva até a antiga casa de farinha, hoje desativada, mas ainda central na memória alimentar da comunidade. A mandioca ali não é tendência gastronômica. É estrutura.


A casa de farinha precisa de manutenção. Precisa de política pública. Precisa continuar funcionando.


Ao redor, roças no meio da Mata Atlântica. Agrofloresta acontecendo sem precisar de workshop.


A mangueira está carregada? Temos manga. A bananeira deu cacho grande? Temos banana. É época de fruta-pão? Existe receita para atravessar o mês.


No mercado local você aprende rápido: come-se o que a terra decide oferecer.

Não é escassez. É calendário natural.



Cida confeccionando o Manzuá
Cida confeccionando o Manzuá

Manzuá: trabalho antes de virar artesanato

O manzuá é um trançado de palha de canabrava que surgiu como armadilha de pesca no mangue — feito manualmente para capturar siri e mariscos. Era ferramenta de trabalho.


Hoje também é vendido como artesanato.

Mas a origem é trabalho, não souvenir de prateleira.


Atualmente, poucos jovens querem aprender a técnica. A construção civil está aquecida na Península de Maraú, o comércio cresce, e o dinheiro fala alto. Ainda assim, há mestres da pesca que insistem em ensinar. Entre mangue e mata, tradição e mercado negociam diariamente.



O catado e o que sustenta a região

E há o catado.

Marisco limpo à mão, preparado por Cida com tomate, coentro e pimenta. Nada mais. Nada menos. Os almoços na casa dela ensinam mais sobre a Baía de Camamu do que qualquer passeio de lancha.


Mas nem tudo é contemplação.


Precisa de gás? Vem de catraia. Precisa de medicamento? Vem de catraia. Precisa ir ao hospital? Catraia, depois carro até Ilhéus. Ensino médio? Faculdade? Também.


Infraestrutura aqui obedece à maré.


Anualmente, em agosto, durante as festividades de Bom Jesus, acontece a Regata de Canoa a Vela da Ilha do Tanque. Canoas tradicionais disputam a regata. Depois, como em quase toda festa popular do interior da Bahia, vem o som alto — geralmente arrocha — e a celebração atravessa a noite.


Festa de Bom Jesus - Ilha do Tanque
Festa de Bom Jesus - Ilha do Tanque

Religião, competição náutica e paredão dividem o mesmo espaço sem conflito existencial.

Para quem está procurando o que fazer em Maraú em agosto — ou em qualquer época — talvez a resposta não esteja apenas nas praias mais fotografadas.


Está entre o mangue e a mata.


Porque entender a Península de Maraú começa por entender o que sustenta a Península de Maraú.

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