DIA 13 - ALGODÕES EM AZUL
- 1 de mai.
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Atualizado: 7 de mai.
Retratos de uma vizinhança e o tempo do azul
Algodões em Azul, realizada em dezembro de 2025 no Bar da Toinha, começou de um jeito simples, quase sem intenção de virar exposição.
Nossa casa provisória — onde estamos vivendo enquanto a residência da Teteia é construída — fica ao lado do bar, numa pequena vila onde praticamente todo mundo é da mesma família — irmãos, primos, tios. Nós somos os de fora, mas essa condição vai se diluindo no dia a dia: um cumprimento que vira conversa, uma conversa que vira presença.
Foi assim que Alice e Melissa, ambas com 6 anos, passaram a frequentar nossa casa. Chegavam para desenhar, brincar, ficar por perto. Aos poucos, esse convívio com elas foi abrindo caminho para uma relação mais próxima com a vizinhança.
Alice é filha de Toinha, dona do bar — um lugar que tem algo de raro por aqui: mistura. Gente que nasceu aqui ou na região, que chegou depois, como nós — famílias, trabalhadores, turistas. Um fluxo real.
A ideia inicial era fotografar só Alice e Melissa.
No dia, pedimos que suas mães soltassem os cabelos. Ambas têm cabelos crespos — uma herança forte, bonita, mas que ainda costuma ser alvo de comentários e pequenas violências no cotidiano das crianças. Nancy, minha companheira, também tem cabelo crespo e, na convivência com as meninas, sempre reforça esse lugar de orgulho. O pedido veio daí, de um gesto simples de cuidado e afirmação.
Montamos o set na viela ao lado do bar, um corredor que atravessa a vila. Levamos câmera, luz, um fundo infinito. Nada muito distante do que é um estúdio fotográfico, só que a céu aberto.

Enquanto fotografávamos, outras crianças começaram a aparecer. Depois vieram os pais, vizinhos, gente curiosa. Alguns só olhavam, outros queriam participar. Quando percebemos, o ensaio já não era mais só das meninas.
As fotos foram surgindo. Cada retrato vinha de uma aproximação natural, de quem estava por ali e decidiu entrar.
Desde o início, havia um cuidado silencioso: não transformar aquela convivência em material.
As imagens não nascem de uma ideia de registro sobre aquelas pessoas, mas de uma relação que já estava em curso. Não havia muito o que buscar — as presenças, os gestos, as formas de estar já estavam ali, acontecendo.

Talvez o trabalho tenha sido mais acompanhar do que produzir.
Esse modo de fazer tem guiado também o que a gente vem construindo com a Teteia: uma prática que se aproxima devagar, que escuta, que participa, sem precisar se impor ou reorganizar o que já existe.
A cianotipia entrou depois, quase como uma continuação desse ritmo.
É uma técnica de ampliação fotográfica antiga e artesanal, baseada na combinação química de sais de ferro que resultam no pigmento azul da Prússia. Depende da luz, da elaboração do negativo digital, de acertar o tempo de exposição e da lavagem com água para revelar a imagem. Não é imediata, não responde rápido. Cada imagem pede um certo cuidado, uma espera.
Esse tempo mais lento tem tudo a ver com o que aconteceu ali. A imagem deixa de ser apenas registro e passa a ser também processo — algo que se constrói aos poucos, com pequenas variações, sem controle total. O azul profundo da cianotipia não funciona como efeito; ele cria um pequeno deslocamento, uma distância suave do cotidiano, sem romper com ele. As pessoas continuam reconhecíveis, mas há ali uma outra camada, mais silenciosa.
Tenho me interessado cada vez mais por esses processos em que a fotografia não termina na captura — em que ela ganha corpo, matéria, tempo.

Por fim, a exposição aconteceu no próprio Bar da Toinha.
As imagens voltaram para o entorno de onde vieram. Foram vistas por quem estava ali naquele dia, por quem foi retratado, por quem acompanhou tudo de perto.
Com os retratos nas paredes, as conversas iam surgindo entre uma coisa e outra — alguém se reconhecia, chamava outro, comentava. Eram também as famílias retratadas que estavam ali, se vendo, se apontando nas imagens, compartilhando histórias. Tudo acontecia com a naturalidade de um encontro cotidiano, sem as cerimônias e os trejeitos típicos das aberturas de arte em museus e galerias. Até porque não era exatamente uma “abertura”, nem um evento separado da vida do lugar; era mais uma continuidade — talvez uma das poucas experiências expositivas na comunidade, construída com a presença ativa de quem vive ali, não só como público, mas como parte do processo.
Em Algodões em Azul, o trabalho se sustenta nesse ritmo mais demorado, em que as relações vão se formando sem esforço e as imagens surgem como consequência, não como ponto de partida.
As meninas continuam indo desenhar e brincar em casa. O Bar da Toinha segue funcionando. As conversas continuam. As imagens ficam como uma espécie de memória leve — não para encerrar, mas para permanecer junto do que ainda está acontecendo em Algodões.


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