DIA 14 - BORAMARAÚ
- 1 de mai.
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Atualizado: 7 de mai.
Imagem pública e a convivência no território

O painel lambe-lambe BoraMaraú foi realizado em dezembro de 2025, a partir de um convite de Eduardo, morador sazonal de Algodões e ativista político. Assim como nós, ele veio do Sudeste e mantém uma atenção contínua às questões da comunidade local, especialmente no que diz respeito às formas de convivência, permanência e participação no território. O trabalho foi instalado na Casa Taba Maraú e surge no mesmo período de outras ações desenvolvidas na vila de Algodões, como parte de um processo mais amplo de inserção e convivência no território.
A Casa Taba Maraú, para além da hospedagem, funciona como um ponto de encontro. É um espaço onde se cruzam moradores, visitantes e iniciativas locais, com festas, conversas, articulações políticas e práticas coletivas. Foi nesse contexto que o convite apareceu, como uma extensão das relações que já vinham sendo construídas. A instalação do painel nesse espaço faz com que ele se integre diretamente ao uso cotidiano do lugar, sendo visto aos poucos por quem frequenta, passa ou reconhece algo ali, sem um momento único de apresentação.

O painel nasce de um recorte das vivências compartilhadas ao longo de quase dois anos de morada na vila. Não se trata de representar o lugar de forma total, mas de reunir elementos do cotidiano: gestos, situações, relações com o ambiente, modos de trabalho e de permanência.
A construção da imagem parte de referências da xilogravura nordestina, não apenas no aspecto formal, mas também em sua circulação e em seu caráter público, embora tenha sido realizada com o apoio de inteligência artificial e estruturada com o uso de ferramentas digitais de ilustração. O uso do lambe-lambe como suporte reforça essa dimensão, ao colocar a imagem em contato direto com a rua, sujeita ao tempo, ao desgaste, à sobreposição e à presença de quem passa.
Ao reunir cenas ligadas ao território da península de Maraú, o painel organiza uma composição não linear. As imagens convivem lado a lado, sem hierarquia, como no próprio cotidiano: pesca, deslocamentos, trabalho, descanso, cultura local, relações entre pessoas e com a paisagem. Não há uma narrativa única, mas um conjunto de situações que se reconhecem.

O trabalho também se insere em um contexto mais amplo, marcado por transformações recentes na região. A presença crescente de investidores, o aumento do turismo e as mudanças no uso da terra têm produzido tensões em torno da permanência das populações locais. Nesse cenário, o painel não busca ilustrar um conflito específico, mas afirmar a presença contínua de quem sustenta o território no dia a dia.
Mais do que uma homenagem, BoraMaraú se coloca como um gesto de reconhecimento. As pessoas representadas — ainda que não identificadas individualmente — dizem respeito a um conjunto de saberes e práticas que estruturam a vida local: o conhecimento das marés, da pesca, do plantio e das formas de se relacionar com o ambiente.
BoraMaraú se conecta, assim, a um conjunto de práticas que vêm sendo desenvolvidas na região, incluindo o projeto da Teteia — que busca estabelecer relações de longo prazo com o território, com a criação de um centro de memória voltado à escuta, ao registro e à partilha de experiências locais.
Nesse sentido, o painel não se encerra como obra isolada. Ele funciona como parte de um processo maior, onde a produção de imagem está ligada à convivência, à presença e à continuidade das relações.
#BoraMaraú

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