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Dia 5 — A VIDA PROVISÓRIA EM 36 m²

  • 17 de fev.
  • 2 min de leitura

Gatos, caos e Raul: tente outra vez. 


Neni Nenê e Fruki Mozão
Neni Nenê e Fruki Mozão

Com um carro 1.0 alugado, morando em 36 m², dois gatos e um quarto que acumulava funções de escritório, ateliê, despensa e depósito, voltamos à estaca zero. Repetíamos como mantra: o mais difícil era o terreno. Isso a gente já tinha.


Morávamos em frente ao Bar Santo Antônio, vulgo Bar da Toinha, numa rua carinhosamente apelidada de Passarela do Álcool. Olhando o copo meio cheio — fazendo do limão uma limonada, já que positividade tóxica era o que restava — estar ali acabou sendo estratégico. Nós, boêmios assumidos, criamos vínculos com pessoas que vivem nesse território muito antes dele virar qualquer tipo de hype (roots hype?).


Esses vínculos renderam mais do que bons drinks. Vieram dicas valiosas sobre formas de construção, histórias de quem já enfrentou solo arenoso e muita chuva, e principalmente a chance de observar como era viver na Península de Maraú no período mais complicado do ano: o inverno.


Inverno aqui não é frio europeu. É umidade onipresente. É roupa que não seca. É ar que mofa. É alimento que brota sozinho — qualquer dia conto a história de quando o milho de pipoca germinou em cima da geladeira e eu fiquei absolutamente passada.


Aprendemos a administrar o lixo orgânico, a priorizar saídas da vila porque a lama é real, a proteger equipamentos eletrônicos da umidade constante e a respeitar o ritmo do clima. Viver integrado com a natureza não é conceito, é logística.


Como trabalho em home office, uma das decisões mais importantes foi instalar internet via satélite. No inverno, as quedas de energia são mais frequentes. Trouxemos um mini gerador e uma pequena placa de energia solar que nos salvaram em vários momentos. Digo isso porque, apesar de parecer paraíso, este lugar é planeta Terra. E a realidade sempre se impõe.


Foi morando ali que entendemos algo crucial para a obra: a fase estrutural, a parte grossa da construção no litoral, precisaria começar depois do período de chuvas para evitar atrasos inevitáveis. Já a fase de acabamento poderia — idealmente — acontecer durante o inverno, quando a equipe poderia trabalhar dentro da estrutura, menos exposta às intempéries. No papel, fazia sentido. Bom, esse era o plano.


Tudo isso só foi possível porque estávamos morando aqui. E morar é completamente diferente de passar alguns dias ou temporadas numa casa de praia. Viver integrado ao território muda a maneira como você projeta, constrói e calcula riscos.


Aprendendo a jogar.


Só que até ali, nada de obra. E o desespero começava a bater. Se começar já estava sendo assim, o que seria de nós no durante?


Ah, e nesse meio tempo a população felina da casa duplicou. Viemos de São Paulo com Chico Lico e Neni Nenê. Daí o Neni adotou o Fruki Mozão — o mozão do Neni — e logo depois chegou a Zezé, a gata cangaceira que conquistou seu lugar na nossa casa. Lembre-se sempre que tudo isso aconteceu em 36 m².


Fruki (o Mozão de todos), Zezé Cangaceira e Chico Lico.
Fruki (o Mozão de todos), Zezé Cangaceira e Chico Lico.


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